Quase uma centena de espécies classificadas como exóticas invasoras deixam um rastro de prejuízos em Santa Catarina. Essas invasões biológicas são o tema do Desafio Natureza, que aborda o tema a partir dos impactos de quatro espécies: sagui-de-tufos-pretos, javali, mexilhão-dourado e pinheiro.

Ao todo, 543 espécies estão listadas na Estratégia Nacional sobre Espécies Exóticas Invasoras, relatório lançado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Em Santa Catarina, quase 20% delas estão presentes: é um dos estados que mais sofre com o problema no Brasil.

É considerada exótica a espécie que está fora de sua área de distribuição natural. Uma parcela pode se proliferar e ameaçar o ecossistema local. Quando isso acontece, elas passam a ser consideradas “espécies exóticas invasoras” – e viram sinônimo de problema. Em SC, cada uma das quatro listadas pelo G1 tem impacto diferente: causam desde prejuízos para agricultores até risco para outros animais.

As invasões biológicas já são a segunda maior causa de extinção de espécies em todo o planeta, atrás apenas da exploração comercial, que envolve caça, pesca, desmatamento e extrativismo, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

 — Foto: Roberta Jaworski/G1

— Foto: Roberta Jaworski/G1

Conscientização

Para pesquisadores, o maior obstáculo hoje é conscientizar a população sobre a relevância do tema. Cortar árvores estrangeiras, como o pinheiro americano, e caçar animais como o javali não são ações imediatamente vistas como benéficas.

A aparente crueldade das soluções propostas provoca maior rejeição do público, acredita Michele Dechoum, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Por outro lado, o risco é chegar no extremo oposto, quando somente as espécies passam a ser vistas como culpadas pelos problemas, alerta Alex Nuñer, também professor da UFSC.

“Os animais não têm exatamente culpa. (…) A gente precisa entender que o problema é global e que está ligado ao homem.” – Alex Nuñer, professor da UFSC

De espécie nativa a exótica invasora

A introdução de espécies exóticas em ambientes naturais pode ocorrer de diversas maneiras. São quatro os motivos mais comuns:

  • Interesse comercial
  • Transporte marítimo
  • Tráfico de animais
  • Transporte involuntário

 — Foto: Rodrigo Sanches/G1 — Foto: Rodrigo Sanches/G1

— Foto: Rodrigo Sanches/G1

Javalis

Os javalis, que causam enormes prejuízos para produtores de milho no interior de Santa Catarina, foram trazidos da Europa e do Uruguai para criação comercial nos anos 1990. Depois de fugirem de seus criadouros, às vezes cruzando com porcos domésticos criados soltos, eles deram origem a uma população selvagem estimada de 200 mil animais apenas em Santa Catarina.

Pinheiro americano

O pinheiro americano também foi trazido para o país por conta de interesses econômicos. Muito utilizada em plantios florestais, a árvore tornou-se invasora porque foi introduzida em ambientes naturais sensíveis e suas sementes espalham-se rapidamente. Por conta da ação do vento, cada semente pode percorrer até 60 quilômetros.

Pinheiro americano invade área de restinga, vegetação nativa de Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1Pinheiro americano invade área de restinga, vegetação nativa de Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Pinheiro americano invade área de restinga, vegetação nativa de Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

A maior parte das espécies invasoras terrestres é trazida por interesse comercial e levada voluntariamente a novos ambientes. No entanto, algumas invasões biológicas começam involuntariamente. Isso pode acontecer com sementes misturadas às de uso agrícola, patógenos e a maior parte dos insetos.

Mexilhão-dourado

No caso das espécies aquáticas que constituem invasões biológicas, a introdução geralmente está associada ao transporte marítimo. É o caso do mexilhão-dourado, molusco de água doce nativo da Ásia que foi introduzido no Brasil por meio da água de lastro de navios cargueiros.

Mexilhão-dourado forma incrustações sobre si mesmo e entope tubulações  — Foto: Celso Tavares/G1Mexilhão-dourado forma incrustações sobre si mesmo e entope tubulações  — Foto: Celso Tavares/G1

Mexilhão-dourado forma incrustações sobre si mesmo e entope tubulações — Foto: Celso Tavares/G1

Saguis

Além das formas de introdução que são comuns no mundo todo, o Brasil sofre ainda com os efeitos do tráfico ilegal de animais silvestres. Em Santa Catarina, os saguis, que são uma ameaça à biodiversidade em Florianópolis, chegaram nos anos 1960 na boleia de caminhoneiros que os traziam do Nordeste como animais de estimação.

“Muitas vezes as pessoas não têm conhecimento do animal que estão adquirindo, não tem conhecimento de como é criar um animal silvestre em casa e acabam desistindo e soltando esses animais na natureza”, explica Elaine Zuchiwschi, do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).

No Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis, um centro de reabilitação recebe animais silvestres que são apreendidos em operações da Polícia Ambiental em todo o estado. Em um esforço para conscientizar a população, alguns dos animais recebidos acabam expostos em recintos visíveis para os visitantes que fazem visitas guiadas no parque.

Saguis ficam em recinto exposto ao público no Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Saguis ficam em recinto exposto ao público no Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Prejuízo financeiro

Tão variado quanto o caminho que as espécies percorrem até se tornarem invasoras é o impacto que elas trazem nos ambientes em que se proliferam. De perdas econômicas a riscos à saúde pública, os efeitos negativos das espécies invasoras são inúmeros e imprevisíveis.

Em Santa Catarina, os danos causados pela proliferação do mexilhão-dourado obrigaram usinas hidrelétricas a mudar protocolos. O molusco atrapalha o funcionamento das usinas geradoras de energia elétrica porque suas colônias atingem densidades de mais de 100 mil indivíduos por metro quadrado e entopem tubulações.

Pelo menos 50 hidrelétricas no Brasil já são afetadas pela espécie, segundo relatório do Ibama divulgado em outubro de 2017. Uma usina de pequeno porte contaminada pelo mexilhão-dourado pode ter um prejuízo diário de cerca de R$ 40 mil com a parada das máquinas para limpeza do molusco, sem contar os custos para a manutenção dos equipamentos e remoção das incrustações.

Usina Hidrelétrica de Campos Novos é uma das atingidas pelo mexilhão-dourado em Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

Usina Hidrelétrica de Campos Novos é uma das atingidas pelo mexilhão-dourado em Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

No ano passado, as hidrelétricas se uniram para financiar pesquisas acadêmicas que visam contornar o problema. Quatro usinas de Santa Catarina são alvo de um projeto de pesquisa da UFSC que analisa a proliferação do mexilhão-dourado: Campos Novos, Machadinho, Itá e Foz do Chapecó. No momento, os biólogos estão estudando os efeitos colaterais do molusco na bacia do rio Uruguai e avaliando possíveis mecanismos de controle biológico.

No caso da invasão de javalis no interior do estado, além do prejuízo econômico há ainda o impacto social da espécie exótica invasora. Isso ocorre porque os suínos, que estão presentes em diversos municípios de Santa Catarina, atacam principalmente as lavouras de pequenos produtores de milho que dependem da cultura para sua sobrevivência.

Produção de milho é afetada por ataques de bandos de javalis em Capão Alto/SC — Foto: Celso Tavares/G1

Produção de milho é afetada por ataques de bandos de javalis em Capão Alto/SC — Foto: Celso Tavares/G1

A prefeitura de Capão Alto, um dos municípios mais prejudicados pela espécie, calcula que de 30% a 40% da produção de milho deste ano esteja comprometida. “Aqui é difícil de você achar uma lavoura de milho que não tenha a passagem do javali”, diz Cláudio Antunes, secretário de agricultura do município.

Biodiversidade e saúde humana em risco

O pinheiro americano, nome popular do Pinus elliottii, parece inofensivo. A árvore é muito popular em plantios comerciais e tornou-se abundante nas regiões Sul e Sudeste. No entanto, seu enorme potencial de dominâncias sobre as espécies nativas chamou a atenção de pesquisadores em Florianópolis.

Em 2010, eles decidiram ir além dos laboratórios e agir por conta própria. Com autorização da Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram), começaram a trabalhar para retirar os pinheiros do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição com a ajuda de voluntários.

Os pinheiros que cresciam na região estavam afetando as espécies nativas da restinga, vegetação que predomina na área do parque. Por serem árvores de crescimento rápido, os pinheiros consomem muita água do solo, o que prejudica as outras espécies do entorno.

A proliferação dos pinheiros também é acelerada, já que as sementes se espalham com o vento e se fixam facilmente em áreas de cobertura vegetal baixa, como é o caso da restinga. Por conta desses fatores, a conservação do parque natural ficou ameaçada.

Grupo de voluntários se reúne em Florianópolis para retirar pinheiros de área de proteção ambiental — Foto: Celso Tavares/G1

Grupo de voluntários se reúne em Florianópolis para retirar pinheiros de área de proteção ambiental — Foto: Celso Tavares/G1

“O nosso objetivo aqui não é cortar árvores, o nosso objetivo aqui é restaurar ecossistemas, é abrir espaço para a biodiversidade nativa.” – Michele Dechoum, coordenadora do mutirão.

Com frequência mensal, a iniciativa já conseguiu retirar 352 mil pinheiros das dunas da Lagoa da Conceição.

A presença de saguis em Florianópolis também pode estar ameaçando o equilíbrio do ecossistema local. A população do carismático macaquinho, introduzido artificialmente na ilha, pode competir com espécies nativas por alimento, além de representar um risco à saúde humana, já que o sagui é vetor de doenças contagiosas.

Segundo a bióloga Cristina Valéria Santos, que estuda o primata há mais de 15 anos, ainda não se sabe exatamente o tamanho do impacto da espécie no meio ambiente.

Visitantes ainda interagem com saguis no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Visitantes ainda interagem com saguis no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

“As pessoas dão alimento para esses animais porque ele é fofinho, bonitinho, é uma prática comum. Elas deixam um pratinho com frutas para promover a aproximação do animal silvestre. Isso é feito na ilha toda”, explica Santos.

“É fato que ele está aumentando sua área de distribuição em Florianópolis. Mas a gente ainda não tem estudos para medir o impacto disso na biodiversidade e nas espécies nativas.”

Para Elaine Zuchiwschi, do IMA, o momento é de tomar atitudes para conscientizar a população sobre as espécies exóticas invasoras e para evitar que aconteçam novas introduções.

“Se nenhuma atitude é tomada, o cenário só piora, porque as espécies estão aí, se reproduzindo e se disseminando diariamente. Quanto antes a gente começar esse tipo de trabalho, melhor”, diz Zuchiwschi. “São necessários tanto esforços de pesquisa científica, para encontrar formas de controle, quanto melhorar as legislações, para responsabilizar quem precisa ser responsabilizado.”

Tamara leitte

Autor Tamara leitte

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