PALAVRA DO PRESIDENTE

Esperança e futuro

Há que ter esperança.

Sim, apesar de todo sofrimento imposto ao povo brasileiro pelo alastramento irrefreável do vírus da Covid 19 precisamos ter esperança. Em primeiro lugar, a esperança de que governantes, empresários e trabalhadores cheguem a um consenso a respeito de protocolos de saúde. Os trabalhadores estão alijados do centro das decisões nacionais e locais. Não é possível barrar doença sem a cooperação de todos e isto já está provado e comprovado. Mais de 430 mil mortos é um número muito expressivo para fazermos de conta que nada está acontecendo no país.

A obtusidade científica que nos assola nos mostra que o advento da tecnologia e da modernidade não nos tirou na idade das trevas. Os seres humanos desafiam algo invisível e, como o apóstolo Tomé, precisam ver para crer e esse ver é a doença que nos corrói. Depois da instalação do vírus não há mais o que fazer senão apostarmos em nossa capacidade genética para combate-lo.

De certa forma, a maioria de nós é agraciada com anticorpos naturais que combatem o vírus e impedem o óbito. A proporção de mortes é percentualmente pequena diante do número de infectados curados. Todavia, a porcentagem não passa de uma operação matemática, fria como devem ser os números e não reflete, de forma alguma, os sentimentos como a dor, a tristeza, a impotência, o luto, ou seja, todo o sofrimento que desaba sobre as famílias com um mínimo de percepção de cristandade ou humanidade.

Como levar ânimo, por meio de discursos vazios de sentimentos, a milhares de famílias e milhões de pessoas que perderam seus entes queridos para nesta pandemia dantesca? Como levar alento para as famílias que aguardam do lado de fora dos hospitais notícias auspiciosas sobre seus parentes entubados nas UTIs brasileiras?

A grande falha dos nossos governantes está em não terem encontrado um ponto de consenso no enfrentamento da pandemia. Ao politizar a saúde, nossos governantes cometeram crime lesa-pátria: colocaram em risco a vida de seu governados. O manejo de mentiras e de informações fabricadas por fanáticos impiedosos aliado ao desleixo é a seta do tempo que torna este combate irreversível. Por mais que façamos agora, não traremos de volta à vida as mais de 430 mil pessoas cuja maioria poderia ter sido salva por programas comprometidos com a saúde do nosso povo.

Este é o grande enigma da política em uma democracia: qual discurso está mais próximo da verdade? Aquele que nos agrada, que alegra nossos ouvidos, mas é mentiroso, fantasioso e desumano, ou aquele que pode não nos agradar, mas é o mais próximo da verdade e o mais factível para garantir bem-estar e saúde ao nosso povo?

Paradoxalmente, a democracia também é o único caminho que temos para expulsar os maus políticos e alterar o rumo das coisas. Daqui a um ano e meio teremos uma nova eleição. São cerca de quinhentos dias. Tempo suficiente para que cada brasileiro reflita no que quer para o futuro. A prova mais difícil que teremos neste curto espaço de tempo é obtermos coragem para nos despirmos de nossas “verdades” pessoais e encaramos a verdade dos fatos: o que é melhor para a nossa nação?

Por isso, a esperança é ingrediente primordial nesta caminhada. Se perdemos a esperança tudo estará perdido. Como disse o papa João Paulo II, perder a esperança é o maior pecado dos homens perante o Criador. Do outro lado, longe da religiosidade, teremos o efeito do caos que, segundo o físico Ilya Prigogine, resultada em instabilidade e “a instabilidade introduz novos aspectos essenciais” não apenas nas teorias científicas, mas também na ordem do mundo das coisas e das pessoas.

Então, não percamos a esperança, não deixemos de olhar para o futuro e não nos esqueçamos do presente. Apesar de todas dores e de tantos sofrimentos, a vida continua no seu curso inabalável e, como diz o homem simples, longe dos centros das decisões que alteram seu dia a dia: “os boletos não param de chegar”.

Cuidemo-nos.

 

Ovasco Resende
Presidente da FEN